Pra saber dizer ‘eu te amo’

O amor bom é facinho, diz Ivan Martins, mas quem já amou sabe que nem só de bons amores é feita a vida. Já há tempos Renato Russo se questionava como é que se dizia ‘eu te amo’, mas se eu fosse respondê-lo hoje diria que é com a maior cara de pau. Carecemos de ‘eu te amos’ sinceros, verdadeiros, daqueles difíceis de dizer, porque se declarar é também se mostrar um tanto frágil, se descobrir vulnerável, e temos aprendido ano após ano que o mundo é dos fortes, dos valentes, dos corações de adamantium.

E isso é uma grande pena. Pena mesmo, porque enquanto Chuck e Blair passam temporadas a fio se debatendo pelas três palavras mágicas, vejo um mundo inteiro que diz ‘eu te amo’ a torto e a direito. Meninas contabilizam tempos recorde, surpresas com a possibilidade de que em apenas quatro dias (ou menos!) o garoto já consiga dizer que a ama. Pode ser verdade? Claro que pode, mas será mesmo que é possível existirem mais amores relâmpagos na vida real do que nos filmes água-com-açúcar de Hollywood?

Na terra do samba a declaração parece que não é vista mais como um grande passo no relacionamento, mas sim como um discurso estratégico. São duas ou três palavrinhas mágicas, dependendo da ênfase, que meninos e meninas passam a usar no pé do ouvido, entre um amasso e outro, durante o sexo, pra tentar conseguir fazer o parceiro ou parceira ficar mais empolgado com a performance; é tática para agradar os mais exigentes e amolecer os mais românticos.  ‘Eu te amo’ não é mais declaração, virou trecho de discurso político.

O ruim é que com isso a frase se banaliza, perde um pouco do sentido. Ninguém mais bota fé no pobre ‘eu te amo’. O que é dito entre uma frase e outra, ou entre um silêncio e outro, com o coração acelerado e a expectativa de ‘o que será que ela (ou ele) vai dizer de volta (ou até não dizer!)?’ agora já começa sendo recebido com desconfiança. ‘Ah, tá, diz que me ama. Sei’, pensa o destinatário da declaração com seus botões. Perdem, com isso, tanto os que dizem estrategicamente quanto os que se entregam àquele amor que está preso no peito, tentando explodir, porque ambos acabam mal recebidos  – a estratégia, já muito batida, mal tem efeito, e a declaração sincera passa por cópia barata.

Mas e aí, hoje em dia, como é que se diz eu te amo?

Acho que ele não tem sido mais dito, mas sim demonstrado, talvez seja até mais interessante assim. Quando o ‘eu te amo’ vira carne de vaca, tipo de coisa que se fala pra muita gente, é preciso buscar uma resignificação.  Quem sabe, com o tempo, aqueles que quiserem angariar apenas uma simpatia extra venham a preferir apenas um sincero ‘gosto muito de você’, os que tiverem como objetivo amolecer os mais exigentes podem voltar às origens e oferecer carinho, atenção e quem sabe até um jantar romântico. Com o ‘eu te amo’ tão batido, podem enfim parar de dizê-lo sem esperar ansiosamente por um ‘eu também’ como resposta, sem planos de subverter significados para um mal arranjado ‘te amo como amigo(a)’ no próximo encontro.

Talvez assim, com mais cautela com as próprias motivações, os amantes possam novamente acreditar no ‘eu te amo’. Não que ele seja eterno, posto que é chama, como já dizia Vinícius, mas que os declarantes possam ter a ousadia e a coragem de admitir que já amaram um dia, ainda que o fogo não esteja mais aceso. Dizer ‘eu te amo’ sem querer significá-lo é covardia – é como apontar uma arma carregada ameaçando atirar e depois do pânico instaurado dizer que é brincadeirinha, que nunca houve a intenção de puxar o gatilho. Melhor uma vida inteira sem revelação sentimental nenhuma do que receber aquelas que são tão falsas quanto nota de três reais, daquelas que mais parecem email de spam do que afeto real. É preciso cuidado com o sentimento que nos motiva a nos declararmos, porque nem tudo nessa vida é só estratégia diplomacia, e ‘eu te amo’ não precisa ser usado como ‘bom dia’.

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